
Como comunicar reajuste de preço para cliente antigo
O cliente que vai embora depois de um reajuste quase nunca é o que achou caro. É o que descobriu sozinho, na fatura, sem ninguém ter avisado.
Reajuste se comunica com antecedência, por escrito e nominalmente, dizendo três coisas: o valor novo, a data exata em que ele passa a valer, e o que muda ou não muda na entrega. Essa é a estrutura inteira. O resto é redação.
E existe um motivo prático para essa ordem. O cliente que cancela depois de um aumento quase nunca é o que achou o valor alto. É o que descobriu o valor novo sozinho, na fatura, sem ninguém ter avisado. O que ele cancela não é o serviço, é a relação.
O cliente não reage ao valor, reage ao susto
Pensa na conta de luz. Você paga todo mês sem pensar. No mês em que ela vem quarenta reais mais cara sem explicação, você abre o aplicativo, procura o histórico, liga para a companhia e passa vinte minutos irritado por uma quantia que você gastaria num lanche sem reclamar.
Não é sobre o dinheiro. É sobre alguém ter mexido em alguma coisa sua sem te consultar.
Com prestador de serviço é pior, porque ali existe uma relação pessoal. O cliente não pensa "o preço subiu", ele pensa "ele achou que eu não ia notar". E quando um cliente antigo sente que foi tratado como número, o dano não se desfaz baixando o valor de volta.
Isso muda a prioridade da mensagem. Você vai gastar mais energia pensando em como avisar do que em como justificar. Justificativa boa com aviso ruim perde. Aviso bom com justificativa mediana passa.

A antecedência certa é a que dá tempo de o cliente se planejar
Não existe um número mágico de dias, e desconfie de quem der um. O critério útil é outro: a antecedência precisa ser suficiente para o cliente fazer o que ele precisa fazer do lado dele.
Isso muda conforme quem está do outro lado.
| Tipo de cliente | O que ele precisa fazer antes | Consequência prática |
|---|---|---|
| Pessoa física | Rever o próprio orçamento do mês | Um aviso simples e direto resolve |
| Pequena empresa, dono decide | Conversar com o sócio, ver o caixa | Precisa de mais tempo do que parece |
| Empresa média ou grande | Abrir chamado, aprovar com o gestor, às vezes refazer contrato | Muito mais tempo, e o ciclo não é seu |
| Órgão público, Sistema S, cooperativa | Processo formal, empenho, orçamento anual | Se o ano já foi orçado, o reajuste só entra no próximo ciclo |
A última linha é a que mais pega gente desprevenida. Em muitas organizações o orçamento do ano seguinte é montado meses antes. Se você avisa em novembro que vai reajustar em janeiro, o cliente pode até querer continuar e não ter mais como: o número dele já foi fechado. Nesse caso, não foi o preço que perdeu o cliente, foi a data do aviso.
Regra prática que evita isso: descubra quando o seu cliente monta o orçamento dele e avise antes disso. Uma pergunta na conversa seguinte resolve, e ela também te dá uma informação comercial que quase ninguém pede.

Justificar por custo próprio enfraquece, justificar por entrega sustenta
Existem duas maneiras de explicar um aumento, e elas produzem reações opostas.
A primeira é falar dos seus custos. Inflação, imposto, ferramenta que subiu, contratação nova. Tudo verdade, e tudo problema seu. O cliente escuta e pensa, com razão, que os custos dele também subiram e nem por isso ele está podendo cobrar mais de quem o paga. Você acabou de convidá-lo a comparar dificuldades.
A segunda é falar do que ele recebe. O que mudou na entrega desde que aquele preço foi combinado, o que você passou a fazer que não fazia, o que melhorou em prazo, resultado ou tranquilidade. Isso não pede solidariedade, mostra proporção.
O melhor teste é temporal: desde quando aquele valor está congelado, e o que aconteceu no seu trabalho nesse período? Se você não consegue responder a segunda parte, o reajuste vai ser difícil de sustentar, e isso é uma informação sobre a sua entrega, não sobre a sua comunicação.
Vale dizer o óbvio que às vezes se esquece: se o preço está o mesmo há três anos, você não está aumentando. Está corrigindo. E é assim que se escreve.

O reajuste é a hora de renegociar escopo, não só valor
Este é o ponto que mais gente perde, e é o que transforma uma conversa defensiva em conversa de negócio.
Relação antiga acumula gordura. Coisas que você passou a fazer sem combinar, pedidos que viraram rotina, um relatório extra, um grupo de WhatsApp que virou plantão. Nada disso estava no acordo original, e nada disso está no preço.
O momento do reajuste é a única hora natural do ano em que dá para colocar isso na mesa sem parecer cobrança. A conversa deixa de ser "vai custar mais" e passa a ser "vamos combinar de novo o que é isto aqui". Você lista o que passou a fazer, propõe o valor novo, e pergunta se aquele escopo ainda é o que ele quer.
Duas coisas boas saem daí. O cliente entende o aumento porque vê o tamanho do que virou. E você descobre o que ele não valoriza, porque quando aparece a chance de tirar algo, ele tira justamente o que não fazia falta. Essa informação vale mais que o reajuste.
Se a conversa expuser que a sua entrega nunca foi bem descrita desde o começo, o problema é anterior, e eu escrevo sobre ele em como cobrar o que você vale sem travar.
Mensagem individual funciona melhor que comunicado em massa
Existe a tentação de resolver tudo com um comunicado único, bem escrito, disparado para a base inteira. É mais rápido e é pior.
Comunicado em massa carrega uma mensagem embutida que você não escreveu: você é um entre muitos, e essa decisão não teve nada a ver com você. Para cliente novo, tudo bem. Para cliente antigo, que é justamente quem você não quer perder, é um rebaixamento.
O formato que funciona é chato e é curto: uma mensagem por cliente, com o nome dele, com o valor dele, com a data dele. Não precisa ser longa. Precisa ser específica.
A estrutura que eu uso tem cinco linhas:
Abre pelo assunto, sem rodeio. "Estou te escrevendo para avisar de um ajuste no valor a partir de março."
Diz o número e a data. Sem eufemismo, sem "pequeno ajuste". O valor novo e o dia em que passa a valer.
Diz desde quando o preço está o mesmo. Uma linha. É o fato que faz o trabalho argumentativo sozinho.
Diz o que continua igual. Essa é a linha que quase todo mundo esquece, e é a que mais acalma. O cliente precisa saber que a entrega não vai encolher.
Abre a porta para conversar. Não para negociar automaticamente, mas para ele não ficar sozinho com a informação.
E manda por escrito. Aviso de reajuste por telefone parece consideração e é armadilha: a pessoa vai desligar sem ter registrado o número, vai lembrar errado, e daqui a um mês a divergência aparece na fatura.
Cliente que pede exceção está pedindo escopo menor, não preço menor
Vai aparecer alguém pedindo para manter o valor antigo. Costuma ser um cliente bom, de relação longa, e é aí que a maioria cede.
Ceder no preço, sozinho, cria dois problemas. Você passa a ter dois preços para o mesmo serviço, e o preço de tabela vira ficção. E o cliente aprende que o seu número é negociável por afeto, o que garante que a mesma conversa vai voltar no ano que vem.
A saída é não responder no eixo do preço. Se ele precisa pagar menos, ele pode pagar menos por menos. Menos horas, menos frequência, menos escopo, menos prioridade de prazo. O valor da hora fica de pé, o cliente fica, e a relação continua honesta.
Isso costuma resolver de um jeito que surpreende: uma parte das pessoas que pedem exceção aceita o valor cheio na hora em que percebe que a alternativa é receber menos. Elas não estavam pedindo desconto, estavam testando se o número era real.
E se for para abrir exceção mesmo assim, por decisão sua, abra com prazo e com nome: "mantenho o valor até dezembro, por causa disto aqui". Exceção com data é exceção. Exceção sem data é o preço novo.
Comunicar valor e cobrar por ele é um dos territórios da comunicação em que eu trabalho, e é onde eu mais vejo gente boa perder dinheiro por redação, não por preço.
Antes de anunciar, saiba se o número novo está certo
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